Leitura clínica
Comentário
A ciguatera é uma intoxicação alimentar ocasionada por ingerir peixes carnívoros tropicais e subtropicais que por sua vez ingeriram peixes herbívoros contaminados com toxinas (ciguatoxinas, maitotoxinas) produzidas por organismos dinoflagelados (Gambierdiscus toxicus) que vivem em detritus e algas de recifes coralinos e rochosos, formando parte do fitoplâncton (Traylor 2019, Armstrong 2016, Valiente 2011, CDC 2009, FAO 2004). Entre as espécies de peixe mais afetadas por essas toxinas estão a agulha, barracuda, Carans latas (linguado, jurel), aguají, mero, peixe-vela, dorado, peto, pargo, morenas, pedregal, esturião (Maya 2007, FAO 2004). É a intoxicação por consumo de peixe mais frequente do mundo, sendo endêmica em zonas tropicais e subtropicais: Caribe, Oceano Índico, sul do Pacífico e Atlântico (Traylor 2019, Armstrong 2016, Valiente 2011). As ciguatoxinas são compostos lipídicos de muito elevado peso molecular, entre 1.023 e 1.157 dalton (Soliño 2018). São estáveis ao calor e ao congelamento (Thompson 2017, FAO 2004) e não afetam os peixes que as contêm que parecem saudáveis. As ciguatoxinas resultam da biotransformação nos peixes de seus precursores, as gambertoxinas (Lehane 2000). Acumulam-se mais em cérebro, vísceras, gônadas e pele dos peixes. A intoxicação se manifesta poucas horas após consumir peixe contaminado em forma de sintomas gastrointestinais (vômitos, diarreia, dor abdominal), neurológicos (parestesias em boca, face, mãos e pés com formigamento, dores, astenia e confusão térmica frio-calor), cutâneos (coceira intensa e exantema cutâneo) e, com menor frequência, cardiovasculares (hipotensão, bradicardia). Os sintomas duram entre uma e três semanas habitualmente mas podem persistir durante meses e originar fadiga crônica e piorar com o álcool (Thompson 2017, Armstrong 2016, Valiente 2011, CDC 2009, Maya 2007). O tratamento é sintomático. Em fase aguda consiste em reidratação oral ou intravenosa e infusão intravenosa de manitol e gluconato cálcico. Posteriormente usam-se anti-histamínicos, sais de cálcio e amitriptilina para as parestesias (Traylor 2019, Valiente 2011, Maya 2007, FAO 2004). O elevado peso molecular das ciguatoxinas torna pouco provável a excreção no leite materno de quantidades clinicamente significativas. As crianças além disso parecem ser menos sensíveis que os adultos à ciguatoxina (Maya 2007). Apenas se informaram 5 casos, alguns escassamente documentados e todos anteriores a 1990, de lactentes de mães afetadas de ciguatera que continuaram amamentando e seus bebês apresentaram quadros diarréicos leves, cólicos e/ou erupções cutâneas moderadas de resolução espontânea (Blythe 1990, Anon 1989 e Bagnis 1987 em Swift 1991). Há um caso publicado mais recente de mãe afetada de ciguatera cujo bebê lactente de 8 meses não apresentou nenhum sintoma e não foram encontradas ciguatoxinas no leite materno (CDC 2009). Nos foi comunicado um caso de mãe afetada de ciguatera residente em Cuba e tratada com carbonato cálcico que continuou amamentando durante toda a doença e cujo lactente de 5 meses não apresentou sintomas. Foi descrito aumento de sensibilidade nos mamilos de mães lactantes afetadas de ciguatera (Lehane 2000). Chama atenção ante a elevada frequência desta intoxicação, a escassez de publicações de casos e complicações durante a amamentação. Possivelmente se a mãe não está afetada de modo muito agudo, a amamentação possa continuar vigiando os possíveis sintomas no lactente (diarreia, exantema...) e suspendendo-a temporariamente só no caso de que estes sejam preocupantes.
Encontrabilidade
Outros nomes e marcas
Sinônimos e grafias 2
- Envenenamiento por peces con ciguatera
- Intoxicación alimentaria por ciguatera
Rastreabilidade
Bibliografia
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